O Deserto alagado

•Fevereiro 2, 2010 • Deixe um Comentário

               Não fosse tamanha torrente ser salgada e dir-se-ia que o deserto iria tornar-se produtivo. Nesse dia o deserto alagou-se.
               Não foi obra de nenhuma tempestade. De nenhum ciclone. De nenhum tsunami.
               Foi obra de sentimentos.
              A força do alagamento foi igual a um tsunami. Com a mesma violência. Com a mesma força bruta. Com a mesma capacidade arrasadora.
              Num instante, tudo ia por água abaixo. Certezas, vida, anos de trabalho.
              Num instante quis romper compromissos, amizades, ajudas.
              No preciso momento em que lhe brotaram dos olhos aquelas lágrimas salgadas. Tantas que alagaram o deserto. Tantas que não lhe escondiam a revolta. Tantas que não chegavam para lhe apagar o fogo que tinha no coração.
             A sua alma ardia lentamente.
             As suas lágrimas caíam.
             O deserto inundava-se.
             Foi à um ano. Nesse dia tudo estava submerso. Tudo parecia uma miragem.
             Hoje, passado um ano, ainda chora. Ainda tem lágrimas. Ainda tem saudades.
             Hoje, passado um ano, aprendeu a recordar.
             Hoje, passado um ano, o deserto já não fica alagado.
             Não pode. Aquele deserto, não pode morrer. Tem “vida” viva.
             Naquele deserto está a nascer uma florzinha, plantada por ela, regada com lágrimas, aquecida com o coração.
             Pau, sabe que a vida não pára. Sabe que num momento, pode alagar o deserto com lágrimas, mas também sabe que o pode aquecer com o calor do coração.
             Entre uma coisa e outra, é melhor ter calor, do que ter uma vida encharcada.
             Ela sabe isso.
             Também sabe como se seca um deserto.
             Pau, sabe que a vida, tem voltas, surpresas, encantos.
             Pau, sabe que a vida, é o que dela quisermos.

Primeiro …

•Janeiro 29, 2010 • Deixe um Comentário

 

 

 

Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça
Me bota na boca
Um gosto amargo de fel…

Depois
Vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar
Um bocado de mel…

Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo
Reflito e estendo a mão
E assim nossa vida
É um rio secando
As pedras cortando
E eu vou perguntando:
Até quando?…

São tantas coisinhas miúdas
Roendo, comendo
Arrasando aos poucos
Com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo
De gritos e gestos
Num jogo de culpa
Que faz tanto mal…

Não quero a razão
Pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais
Prá engolir…

Veja bem!
Nosso caso
É uma porta entreaberta
E eu busquei
A palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta
Veja bem!
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida dá gente
Gritando que não…

Veja bem!
Nosso caso
É uma porta entreaberta
E eu busquei
A palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta
Veja bem!
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida dá gente
Gritando que não…

By Maria Bethânia

Uma história …

•Janeiro 29, 2010 • Deixe um Comentário

              

                - Pai, queres ver?
               Avalon colocou os óculos e leu atentamente.
               O tema da composição era “Uma história de amor” e inseria-se na segunda fase do teste.
               Estava feito. Estava corrigido.
               – Os teus colegas também escreveram assim?
               – Não. Quase todos escreveram a história de amor de Pedro e Inês, Romeu e Julieta, etc.
               – Não te lembraste dessas?
               – Lembrei, mas não quis.
               – Não quiseste porquê?
               – Lembrei-me de ti. Lembrei-me que se fosses tu ias fazer de maneira diferente. Esta também é bonita. É diferente.
               – Pois é.
               – Só eu e a … é que tivemos Muito Bom.
              Foi-se embora.
              Ia contente, na diferença.
              Deixou-se ficar, sentado, pensativo.
              Há coisas, coisas simples do dia-a-dia, que são verdadeiras Histórias de amor.
              Bom fim de semana a todos.

Eu vou

•Janeiro 17, 2010 • Deixe um Comentário

 

Durante anos foram uma musica e letra que me arrepiaram. Torciam sentimentos de esperança dentro de mim.

Hoje continuam. Com mais um argumento. Com mais um desespero.

Barcelona,

Sejas tu Mulher ou Cidade, eu vou até ti.

Em Ti, saborearei ou não, momentos de glória.

 

 

 

Barcelona, barcelona
Barcelona, barcelona
Viva

Eu tive esse sonho perfeito
- um sonho que me envolveu
Nesse sonho estavam eu e tu
- tal como esse aqui
Quero que todo o mundo para ver
- um instinto me guiava
Uma sensação milagrosa
Me guia e me inspira
Agora meu sonho lentamente vai se tornando verdadeiro

O vento é uma brisa delicada
- eu estou falando de ti
Os sinos estão soando
-a música voa
Estão nos chamando juntos
Nos guiando para sempre
Desejando que meu sonho jamais se vá

Barcelona – era a primeira vez que nós nos encontramos
Barcelona – como eu posso esquecer?
O momento em que tu entraste no quarto,
Tu abalaste a minha respiração
Barcelona – a música tocou
Barcelona – e ela nos uniu
E Deus, quis que nos encontrássemos novamente algum dia

Deixa a música começar
- deixa nascer
Inicia a música
-ahhhhhhhhh
Deixa as vozes cantarem
-nasce um grande amor
Começa a celebração
-vem em mim
E chora
-grita
Vem viva
-viva
E agita os clamores vindos dos céus
Ah, ah, agitando as nossas vidas

Barcelona – um horizonte tão lindo
Barcelona – como uma jóia ao sol
Por ti serei gaivota de teu belo mar
Barcelona – soam os sinos
Barcelona – abre tuas portas para o mundo
E Deus está querendo
- e Deus está querendo
E se deus está querendo
Amigos até o fim
Viva – Barcelona

By – Freddie Mercury e Montserrat Caballé

Mas disse-o

•Janeiro 17, 2010 • Deixe um Comentário

 

“Porque não me disseste quando eu era livre?”

Mas disse.
Ao longo dos anos foi dizendo.
Alheio ao passar do tempo.
Sempre.
Sempre num chamamento surdo.
Disse-o naquela noite.
Disse-o quando lhe entregou o coração.
Disse-o quando a quis.
Disse-o quando a desejou.
Disse-o quando a abraçou.
Disse-o quando lhe ofereceu presentes.
Disse-o quando os deitou fora.
Disse-o quando se exasperou.
Disse-o quando se exaltou.
Disse-o quando a olhou.
Disse-o quando a suspirou.
Disse-o quando a pensou.
Disse-o quando a sonhou.
Disse-o quando a chorou.
Disse-o quando a ajudou.
Disse-o quando a maltratou.
Disse-o quando a imaginou.
Disse-o quando a perdeu.
Disse-o quando a ganhou.
Disse-o quando a deixou.
Disse-o quando a viu partir.
Disse-o quando a viu chorar.
Disse-o quando a humilhou.
Disse-o quando a balbuciou.
Disse-o quando a teve.
Disse-o quando se entregou.
Disse-o quando a esperou.
Disse-o…
Disse-o…
Disse-o…
Foi-o dizendo.
No começo, ao longo dos anos, no passado, no presente.
E agora? E agora que ela sabe?
O que lhe restará dizer?
Também já lhe disse.

Amo-te!

Do fundo…Uma palavra

•Janeiro 14, 2010 • Deixe um Comentário

Quando olhei a foto tirada por uma amiga, lembrou-me um poema. Dois minutos de internet e ele aí está. Do fundo dos anos, vem uma amizade. Mais fundo ainda vem um amor. Uma palavra. Uma palavra no escuro. O nome dela.

 

Para alem do tempo, para alem do escuro!

Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula. Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.

Do fundo do tempo,
martelava.
Contra o muro.

Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.

 By – Eugénio de Andrade

   

      

Saudades

•Janeiro 14, 2010 • Deixe um Comentário

      

         Podem a face serena e os olhos profundos, definir a alma de uma mulher?
          Podem eles transmitir-nos alguma coisa da sua mente?
          Sempre acreditei que sim. Sempre o senti e sempre assim vi.
         Avalon olhou as fotos, matou em duas delas, saudades imensas. Lembranças de outros tempos. Nessas lembrou-se de horas, dias e noites de amizade. Pura. Lembrou-se e matou as saudades de alegrias e tristezas. De apelo e de coragem. Lembrou-se da garra de ser mulher. Lembrou-se da coragem que ela lhe impunha.
          Noutras, generalistas, lembrou-se do fogo do inferno. Coisas passadas, nas profundezas e no silencio das caves, mais alto também, mais para junto do céu.
          Nas outras fotos, viu os olhos tristes, pregados numa face serena.
          Interrogou-se como sempre faz.
          O que mostram eles? O que mostra aquela face serena?
          Avalon, olhou e viu toda uma vida desfeita. Viu as agruras de uma vida, o sofrimento eterno. Naqueles olhos que nos olham, cravados em nós, sente-se o apelo de quem se quer agarrar á vida. Aqueles olhos estão a olhar para alem da vista.
          Pode a vida moldar-nos a face, marujar os nossos olhos, multifacetar-nos a cabeça. Quem souber olhar, vê muito para alem dos olhos. Entra neles, escuta-os, afaga-os.
          Avalon olhou e viu.
          Viu a mulher desesperada para sair de si. Viu a mulher num apelo. Viu uma mulher escondida.
          Todos nascemos pequenos. Para muitos basta nascer uma vez. Para outros, é necessário nascer mais vezes. Já adultos.
          Por norma nasce-se da barriga da mãe. Da madrasta. Noutros nascimentos nasce-se de uma mão estendida de um amigo, de uma amiga. Nunca é tarde para nascer. Nunca os nascimentos são demais.
          Avalon, recostou-se e pensou:
          – Quantas vezes nasci?
          Não tem resposta. Nasceu as vezes que foram necessárias, as que pediu. As que quis.
          Olhou os olhos daquela mulher e sentiu-a pronta para nascer. Pelas mãos de uma amiga. Olhou mais fundo nos olhos dela e viu-a ansiosa. Olhou mais fundo ainda e viu-a toda nua. Despida das amarras que a prendiam ao passado. Olhou ainda mais fundo, muito mais fundo e ouviu:
           – Estou a caminho. Uma mão está a puxar-me.
           Avalon, lembrou-se da vida.
           Avalon lembrou-se dos olhos da Bailarina. Neles viu sempre mais que a superfície.
           Nos olhos da Índia, viu desde o primeiro momento, aquilo que ninguém viu.
           Viu …
           Agora, hoje, aqui sentado também vê. Não nos olhos da Bailarina, não nos olhos da Índia.
           Agora, hoje, aqui sentado, vê nos olhos daquela mulher, a coragem de voltar a nascer.
           Sozinha?
           Não!
           Mais uma vez, pela mão da Bailarina.
           E eu.
           Eu só sei.
           Gostava de ser dono dos olhos da Bailarina.
           Ainda que fosse só quando eles brilham.

  

    

 

Quantas …?

•Janeiro 13, 2010 • Deixe um Comentário

 

1 Ano e 8 meses
20 meses

Quantas semanas?
Quantos dias?
Quantas horas, minutos e segundos?
Quantas alegrias e tristezas?
Quantos momentos bons e maus?
Quantos risos e lágrimas?
Quantos almoços e jantares?
Quantas duvidas e certezas?
Quantos dias perdidos e ganhos?
Quantas praias e castelos?
Quantos Km e abraços?
Quantas flores e cardos?
Quantas esperanças e enganos?
Quantas noites e dias?
Quantas madrugadas por acontecer?
Quantos Sóis e Luas por nascer?
Quantas marés perdidas?
Quanto amor transbordado, reprimido, amordaçado?
Quantas flores por dar?
Quantos invernos passados, primaveras sem acontecer, Outonos sentidos e verões transpirados?
Quanto…?
Quantos…?
Quanta…?
Quantas…?
Não sei.
Sei de mim, as contas que não sei.

É só o infinito a desenhar-se
É só ….

O primeiro segredo

•Janeiro 12, 2010 • Deixe um Comentário

         

           Um dia, vão lá muitos anos, Avalon, dirigiu-se ao sul.
          Rumou País abaixo, sempre para baixo, até não ter mais terra que lhe suportasse o peso do corpo. Estacou junto ao mar. Portugal, acabava ali, no sítio onde começam as vidas.
          Não ia sozinho. Ao seu lado, caladinha, seguia uma avezinha. Como todas as avezinhas, esta também era livre. Não precisava de cantar para encantar. Por isso seguia em silencio.
          Avalon, sem se cuidar, guiava. Guiava a vida de encontro ao futuro.
          Naquela madrugada, quando colocou o motor a funcionar, Avalon desconhecia, que estava a pôr em marcha muitos anos da sua existência. Ao seu lado seguia calada uma avezinha, como qualquer outra.
          As horas iam passando, arrastando consigo os km de uma estrada sem fim. Sempre rumo ao sul. Os raios de sol aqueciam Avalon, preparando-o para o futuro.
          Já a lua serpenteava no céu escuro e eles sentados frente e lado.
          Avalon olhou a Avezinha e notou-lhe a graciosidade. Reparou-lhe na beleza. Sentiu-lhe o odor.
          Na mesa, as bebidas, desciam, em Avalon o calor nascia.
          – Avezinha, queres cantar para mim? Gostava de ouvir os teus trinados.
          Surpresa perante a pergunta directa, a Avezinha, tremeu. Ansioso Avalon, suspendeu-se.
          – Não posso. Não quero.
          Avalon, estremeceu. Igual, calou-se e a bebida desceu mais fundo no copo.
          A Avezinha, percebeu e falou:
          – Vou contar-te um segredo. Apesar da idade, eu nunca cantei para ninguém. Já estive prestes, mas ainda não cantei.
          – Não importa. Não precisas de cantar. Danças só.
          – Não. Não quero. Tu já tens quem cante para ti.
          As bebidas acabaram. Naquele tempo a Avezinha não gostava de elevadores.
          Já no quarto, Avalon, mal dormiu.
          Sozinho, tinha acabado de colocar a Avezinha no coração. Esperava a todo o momento que o telefone interno tocasse.
          A todo o momento, esperava ouvir:
          – Anda, vem ouvir-me cantar.
          Mas o telefone não tocou.
          O sol acordou, esticou os braços e colocou diante de Avalon a Avezinha. Talvez por ser manhã, Já a viu de outra maneira.
          Viu-a daquela maneira que o tempo não é capaz de alterar.
          Rumo ao norte, Avalon parou no tempo três vezes. Três vezes se recorda hoje. Três vezes cravou mais fundo a Avezinha junto do coração.
          O tempo passou. A avezinha, aconchegada, soltou-se, não sem antes ter cantado sublime para Avalon.
          Passaram muitos anos.
          Hoje, o canto da avezinha, tem outros acordes. O timbre bonito do chilrear é diferente. Adormece qualquer um na ilusão de um concerto esperado. Faz soar as trombetas dos anjos flamejantes.
          Hoje o trinado da Avezinha faz acordar as flores no jardim de Avalon.
          – Avalon, não posso cantar. Não sou livre. Não posso roubar-te.
          De cada vez, Avalon, fecha os olhos e espreita o coração.
          Há muitos anos atrás, Avalon colocou junto do coração a Avezinha. Nunca a tirou de lá.
          Agora é de noite. Aqui sentado, noite escura, o sol brilha.
          Um grito percorre Avalon:
          – Avezinha, é noite e o sol está a brilhar. Quando saíste, esqueceste-te de apagar o sol.
          Nestas noites sem fim, a Avalon, resta-lhe estes raios de sol.
          Há muitos anos atrás, colocou-a junto do coração.
          Ela ainda por lá anda.
          Mas …

            

                

… assim

•Janeiro 4, 2010 • Deixe um Comentário

 

Foi louco. Teve a ousadia de desafiar a vida. Lutou por um sonho. Viveu com ele. Cresceu com ele. Partiu. Ficou. Deixou-nos um legado. Prestes a acabar a época natalicia fica um bocadinho dele. O mundo é dos loucos. Dos que olham a vida nos olhos. Como diz o ultimo verso.

“Pois estás no meu coração para sempre”

 

 

(Abraça-me)
(Encosta a tua cabeça devagar)
(Suave e corajosamente)
(Leva-me até lá)

(Guia-me)
(Ama-me e alimenta-me)
(Beija-me e liberta-me)
(Sentir-me-ei abençoado)

(Leva-me)
(Leva-me com coragem)
(Levanta-me devagar)
(Leva-me até lá)

(Salva-me)
(Cura-me e lava-me)
(Diz-me suavemente)
(Eu estarei lá)

(Levanta-me)
(Levanta-me devagar)
(Leva-me corajosamente)
(Mostra-me que te importas)

“No nosso momento mais sombrio
No meu pior desespero
Ainda te vais importar?
Estarás lá?
Nas minhas provações
E minhas atribulações
Nas minhas dúvidas
E frustrações
Na minha violência
Na minha turbulência
No meu medo
Nas minhas confissões
Na minha angústia e dor
Na minha alegria e minha culpa
Na promessa de um
Outro amanhã
Nunca te deixarei partir
Pois estás no meu coração para sempre.”

By Michael Jackson – Will You Be There