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Final da tarde de 31 de Janeiro de 2011.
A família começou a reunir-se para juntos entrarem no novo ano.
Este ano a chegada foi feita de uma forma bem diferente de qualquer outro.
Em cada rosto um sorriso.
Em cada coração mais um lugar ocupado.
Em cada gesto o acolhimento.
Em cada palavra uma melodia.
Em cada olhar a ternura.
O motivo:
Traziam com eles a alcofa.
Dentro de casa os que lá estavam já a esperavam.
Quem lá estava antes mesmo de a ver já sabia que ela tinha chegado.
Largaram-se os tachos,
Largou-se o lume acesso para o churrasco,
Largaram-se as brincadeiras,
Largou-se o lugar junto à lareira,
Largaram-se os preparativos na mesa do jantar,
…
Tudo ficou para trás.
Todos rumaram num só destino…
A alcofa.
A alegria em cada cara era geral.
Dentro da alcofa vinha o “Menino Jesus”.
O nosso “Menino Jesus”.
Por uma noite e um dia ele foi nosso.
Foi um tempo vivido em plena partilha de afectos.
De dar.
Do mais novo ao mais velho todos lhe deram tempo.
A composição do tempo foi feita de ingredientes vitais, simples e grátis:
Carinho.
Atenção.
Beijinhos.
Miminhos.
Amor.
Disponibilidade.
…
Deu-nos tanto.
Dar na sua inocência de um bebé de 8 meses.
O sorriso na carinha rechonchuda.
O palrear de pardalinho feliz.
O prazer do chapinhar no banho e a todos molhar.
A papa comida como um verdadeiro comilão.
A fralda a corresponder.
Os sonos adormecidos ao colo, juntinho ao coração.
As brincadeiras numa manta no chão em que todos que lá entraram passaram a ser crianças como ele.
…
Para nós que demos, a sensação de ter sido muito pouco é enorme.
Para nós ele deu tudo a dobrar.
Domingo à noite na despedida.
Quem o rodeava tinha um sorriso na cara, mas para os mais atentos em muitas delas o sorriso molhava a cara.
Nos nossos pensamentos o desejo de uma vida futura repleta do que levou de nós, mais o que de bom a vida pode e deve dar a quem, como ele, se viu privado do ser mais precioso – uma Mãe.
Foi juntar-se a outros meninos e meninas que sem lar foram acolhidos naquela casa
Foi um adeus até breve.
O “Menino Jesus” passou em minha casa.
***//***
Porquê o acolhimento naquela casa?
As discussões e violência entre os pais com o filho no meio.
Hoje, passados uns meses, os pais vão visita-lo.
Duas horas por semana.
Vão juntos.
Nas duas horas preocupam-se mais com eles, em mostrar a quem os vê que a união é presença entre eles do que dar àquela criança o que lhe é devido.
Se a violência e discussões era uma constante como é que no espaço de uns meses a paz reina entre eles?
Seria o bebé o causador?
Que certezas existem que na volta ao lar tudo não volte ao mesmo?
????
Como pode uma Mãe deixar ir um filho dos seus braços para os braços de desconhecidos?
Uma Mãe que tinha e tem nas mãos dela o poder de o não deixar sair.
No dia em que o recebemos tinha tido antes a visita dos pais.
Saíram, de junto dele, felizes da vida para irem festejar a passagem do ano.
Como é que existem Mães assim?
Não sei.
Caracol Voador (odia.vira@hotmail.com)
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